Importância da reabilitação da perda auditiva na infância

De acordo com o IBGE, um milhão de crianças e jovens até 19 anos possuem algum tipo de perda auditiva. “Por isso, é fundamental que os pais fiquem atentos aos sinais de perda auditiva apresentados pelos filhos durante seu desenvolvimento”, explica a fonoaudióloga Cilmara Levy, especialista em audiologia pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia, mestre em psicologia social pela PUC-SP e doutora em Ciências da Saúde pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Autora da obra Manual de Audiologia Pediátrica (editora Manole), Cilmara, que trabalha na  Associação de Apoio Educacional ao Deficiente Auditivo e na Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, concedeu uma entrevista exclusiva ao portalDeficiência Auditiva, na qual fala sobre a perda auditiva na infância e a importância do tratamento para esses casos. “Dependendo do grau da perda auditiva, a demora no tratamento pode impactar na alfabetização, trazer atrasos na linguagem e até problemas de comportamento. Ao constatar a perda auditiva, é imprescindível decidir logo pela abordagem terapêutica que será adotada”, diz. Leia mais, a seguir:

D.A. Como perceber se uma criança tem perda auditiva?

Cilmara Levy: É possível identificar que há algo errado com a audição das crianças quando elas pedem para repetir o que se falou, quando demoram para falar, quando não desenvolvem naturalmente a fala e quando não acordam com barulhos, por exemplo .

D.A. Quais são os tipos de perda auditiva na infância e possíveis causas?

C.L: Existe o tipo de perda auditiva condutiva (quando o problema é provisório devido a infecções de orelha, ou quando apresentam má formação de orelha externa e /ou média) ou neurossensorial. Neste caso, a perda é permanente e pode variar de grau leve, moderado, severo ou profundo. As possíveis causas da surdez, atualmente, tem a ver com alterações genéticas, infeções congênitas, ou por infecções pós-natais, como a meningite.

D.A. Há algum fator de risco na gravidez para causar a deficiência auditiva no bebê? Quais?

C.L: A rubéola materna é um risco grande para a perda auditiva. A ingestão de bebida alcoólica e a ingestão de alguns remédios sem controle do médico também podem causar problemas sérios para o feto, entre eles a deficiência auditiva. Famílias que possuem casos de deficiência auditiva também podem caracterizar perda auditiva por fatores genéticos.

D.A. De que maneira a triagem auditiva neonatal pode facilitar esse diagnóstico?

C.L: A triagem auditiva neonatal é um instrumento importante para o diagnóstico da perda auditiva, pois uma vez que a criança falha na triagem é imediatamente encaminhada para a investigação do diagnóstico. Nem sempre o bebê que falha na triagem apresenta perda auditiva. A orelha do bebê pode estar comprometida com líquidos do parto que, uma vez removidos, permitirão que o reteste apresente resposta positiva – o que significa que a criança ouve bem. No entanto, se o reteste der alguma alteração, a investigação completa do diagnóstico deve ser realizada.

D.A. Como a perda auditiva pode interferir no desenvolvimento da criança?

C.L: Independente do grau de perda auditiva, que pode ser leve, moderado, severo ou profundo, o atraso da linguagem pode acontecer. Em perdas menores é possível que a criança aprenda a falar, mas apresente dificuldade para entender o que lhe é falado em ambientes ruidosos, o que poderá trazer problemas na alfabetização e no seu comportamento psicossocial. Em perdas de grau mais acentuado, o atraso de linguagem poderá ser mais significativo.

D.A. A partir de qual idade é possível fazer a reabilitação da perda auditiva?

C.L: A partir do diagnóstico. Preconiza-se que, o quanto antes se iniciar a reabilitação auditiva, menor problemas secundários poderão aparecer. Hoje em dia, é possível iniciar a reabilitação antes dos 6 meses de idade.

D.A. Qual é o maior desafio encontrado para a reabilitação da criança com perda auditiva?

C.L: Acredito que o maior desafio, em casos de perda auditiva severa e profunda, é a escolha entre as diferentes linhas de reabilitação. Entre o bilinguismo, há a língua de sinais /oralidade e a reabilitação aural/oral. Outra recomendação médica é o implante coclear. Esta decisão deve ser tomada assim que o diagnóstico e a indicação forem definidos. Outro desafio encontrado em todo País é a dificuldade de encontrar atendimento bilíngue para essas crianças.

D.A. É possível enumerar os fatores de sucesso para a reabilitação da perda auditiva numa criança? Quais?

C.L: O envolvimento da família é fundamental para o sucesso da reabilitação da criança. Independente da escolha da família sobre qual reabilitação fazer entre as abordagens disponíveis, a família deverá ser parte do processo como um todo. Se a escolha  for pela reabilitação aural/ oral será fundamental a colocação de aparelhos, e/ ou implante coclear. A criança precisa receber estimulação auditiva por todo período que estiver acordada.  Se for pela língua de sinais , a família deverá aprender esta língua. No caso da criança bilíngue a recomendação acima vale, ou seja uso do dispositivo eletrônico sempre que estiver acordada  e o aprendizado da língua de sinais.

D.A. Como é realizada a terapia fonoaudióloga em crianças?

C.L: A terapia fonoaudiológica trabalha para a estimulação das habilidades de fala e linguagem e as sessões podem variar entre uma, duas ou três vezes na semana, dependendo de cada caso. Normalmente é uma atividade lúdica, na qual, por meio de brincadeiras, é exposto para o bebê ou criança estimulações auditivas e linguísticas. Para a família traz de volta a possibilidade de se comunicar com o filho. Isso porque, ao se identificar a surdez, os pais, muitas vezes, fecham o canal de comunicação com a criança. É, claro, uma atitude inconsciente, mas que pode trazer dificuldades de relacionamento entre os familiares. O resgate desta relação é de suma importância até para o sucesso da terapia.

D.A. Como geralmente a família procede quando tem um filho diagnosticado com problema auditivo? Quanto tempo dura até aceitar que o filho tem problema e a decisão de tentar o tratamento? 

C.L: Impossível precisar. Cada família é diferente e o tempo para as tomadas de decisões podem variar. É muito comum o choque em primeiro lugar, mas outros sentimentos poderão ser vivenciados, como negação, barganha e luto.

D.A. Alguma coisa pode atrapalhar o processo de reabilitação da criança? Que cuidados devem ser tomados para que ele seja bem sucedido? Quem deve ser envolvido e de que maneira

C.L: Família, saúde e educação precisam caminhar juntos para garantirem um processo de reabilitação completo e bem sucedido.

D.A.  A família também precisa passar por algum tipo de adaptação no processo de reabilitação da criança? Cabe a ela também estimular exercícios, por exemplo?  Ou modificar a rotina? Explique:

C.L: A família não tem que ser o terapeuta, mas é possível para ela aprender a maneira mais adequada de realizar as estimulações auditivas e linguísticas, aproveitando a rotina e o dia a dia da criança. Em caso da opção de reabilitação ser pela língua de sinais, a família precisa aprender esta língua.

D.A. É importante inserir a escola neste contexto? De que maneira?

C.L: A escola tem que ser parceira neste processo. É necessário que professores e demais membros da escola conheçam as necessidades da criança e se adaptem a esta demanda. É preciso garantir a inclusão da criança de forma positiva, permitir que professores e coordenadores entendam a necessidade de cada criança e que cobrem o uso do dispositivo eletrônico e seus devidos acessórios, por exemplo, como o sistema de frequência modulado. Em contrapartida, a escola precisa garantir a aplicação do processo de alfabetização e letramento cabíveis.

D.A. Como, geralmente, as escolas se adaptam neste caso? Elas aceitam ou ainda é um problema? Como enfrentar isso?

C.L: Varia muito de região. Ainda é um processo de aprendizado para a maioria das escolas. Muitas, com boa vontade e pouco conhecimento, se arriscam e vão buscar a informação que falta; outras aderem a uma inclusão perversa (segundo Baden, “a sociedade exclui para incluir e esta transmutação é condição da ordem social desigual, o que implica o caráter ilusório da inclusão. Todos estamos incluídos de algum modo, nem sempre decente e digno, no circuito reprodutivo das atividades econômicas, sendo a grande maioria da humanidade inserida através da insuficiência e das privações, que se desdobram para for-a do econômico. Portanto, em lugar da exclusão, o que se tem é a “dialética exclusão/inclusão). Outras, ainda, estão se preparando bastante para receber as crianças surdas. Como tudo na vida, foi necessário criar a demanda para que as escolas se preparassem para recebê-las, e como varia muito entre grau e tipo de perda auditiva, as escolas ainda terão muito que aprender. Por exemplo, é comum escutarmos das mães que algumas professoras se recusam a usar o Sistema de Frequência Modulada. Nestes casos, é necessário enfrentar a ignorância do assunto e preparar mais as escolas, seus coordenadores e professores sobre os benefícios destes equipamentos que auxiliam os alunos com perdas auditivas a escutar melhor em ambientes ruidosos, como a sala de aula. O que é preciso levar em consideração é que cada perda auditiva demanda necessidades específicas e cada criança e sua família também. Respeitar as decisões que a família tomou é fundamental, assim como informar as famílias sobre as opções possíveis para cada caso.

Fonte: http://deficienciaauditiva.com.br/

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